O design por trás da criação de uma política pública

12 minutos de leitura - 7 de Maio de 2025

Como um experimento entre ciência, produto e propósito virou referência nacional em sustentabilidade.

Você sabe de onde vem o algodão da sua camisa? Ou o milho que virou o óleo da sua cozinha? Ou ainda, como foi produzido o etanol que abastece seu carro? Esses produtos, tão presentes na rotina, têm algo em comum: sua origem. Mas o que quase ninguém sabe é o que vem antes deles. Que tipo de propriedade os produziu? Como é o solo de onde vieram? Houve erosão? Preservação de nascente? Qual foi o impacto ambiental gerado nesse processo?

A verdade é que, até hoje, são raríssimos os mecanismos que permitem ao consumidor comum acessar essas informações de forma clara.

O projeto Selo Verde Brasil nasceu a partir dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 da ONU, um conjunto de metas globais criadas para promover o desenvolvimento econômico aliado à inclusão social e à preservação ambiental. Nossa ideia inicial nem era construir um sistema de certificação nacional, e muito menos imaginar que isso viraria lei ou programa de governo. A gente queria entender, na prática, como aplicar os princípios da sustentabilidade no dia a dia das propriedades rurais brasileiras.

Onde tudo começou: Entre compromissos globais e a semente de uma ideia

Mais do que construir um algoritmo que se traduziria em um Selo, nosso desafio era estruturar um ecossistema viável, justo e escalável. Com diversos pesquisadores de diferentes instituições envolvidos — das áreas mais diversas — o projeto reunia pessoas que nunca haviam trabalhado juntas. E cada um com seu universo técnico, sua linguagem e seu ritmo.

No começo, parecia que cada um falava um idioma. Exceto eu e o Michael, que vinhamos do universo de produto. Poucos conheciam Kanban, planning, retrospectiva. As reuniões diárias (dailys) aconteciam às sete da manhã — sim, tomando café e fazendo daily — porque era o único horário em que todo mundo conseguia encaixar entre trabalho, pesquisa e família. Era quase como formar um time de elite multidisciplinar, remota e descentralizada — e fêzê-lo funcionar.

Essa experiência foi desafiadora desde o início. Antes mesmo de ensinar metodologias ou implementar rituais de produto, precisávamos engajar as pessoas pelo propósito. Era necessário criar um senso de pertencimento, fazer com que cada pesquisador enxergasse valor em construir algo coletivo. Só depois de conquistar essa conexão, foi possível começar a ensinar os processos de produtização — como transformar pesquisa em produto, conceito em prática, dados em solução.

Nosso trabalho se dividiu em duas frentes. De um lado, havia o desafio humano: pegar um grupo de especialistas que nunca trabalharam juntos, apresentar metodologias ágeis, estruturar cadências, cerimônias e fluxos de acompanhamento. Fizemos isso com disciplina e empatia. Reuniões curtas, checkpoints objetivos, adaptação de rituais. O que funcionava com squads de produto teve que ser ajustado para um contexto mais acadêmico e científico. Essa adaptação exigiu escuta, flexibilidade e muita paciência, mas foi o que possibilitou a criação de uma linguagem comum entre pessoas de áreas completamente distintas.

Traduzir o invisível: O que é ser designer num projeto onde não há tela?

Assumindo o papel de designer estratégico, atuando lado a lado com Michael Rhallim, minha missão era dar forma, ritmo e cooperar na tomada de direção da iniciativa.

Tudo começou com uma pergunta que poderia muito bem ter saído de um café filosófico: como se conceitua ou mensura a qualidade de algo? Esse foi o nosso estopim! Realizamos entrevistas com os stakeholders, não para validar uma solução pronta, mas para compreender a real importância — e a enorme abrangência — de se construir algo que ainda não existia. Era mais sobre investigar o impacto do que sobre desenhar funcionalidades.

Começamos a estruturar nossa visão a partir de um canvas de proposta de valor, uma ferramenta que nos ajudou a entender não apenas o que seria construído, mas para quem e por quê. Nele, identificamos dores, ganhos e expectativas do ecossistema, e começamos a delinear como nossa solução poderia aliviar os pontos críticos e potencializar o valor percebido. Foi a partir desse entendimento que os módulos começaram a tomar forma.

Canvas de proposta de valor utilizado na fase inicial do projeto, ajudando a mapear dores, ganhos e expectativas do ecossistema envolvido.
Canvas de proposta de valor utilizado na fase inicial do projeto, ajudando a mapear dores, ganhos e expectativas do ecossistema envolvido.

Além do canvas, outros processos de design também tiveram um papel fundamental nessa jornada. Criamos uma matriz de priorização para eleger o que seria desenvolvido primeiro — entendendo o que era vital, o que agregava mais valor e o que poderia ser escalado futuramente. Também organizamos sessões de arquitetura de informação para estruturar os módulos e submódulos do produto, prevendo critérios e dependências técnicas. E, por fim, iniciamos a escrita colaborativa das histórias de usuário. Um exercício que, além de conectar requisitos a pessoas reais, nos forçou a consolidar o entendimento comum do que seria cada funcionalidade. Era ali que conceitos ganhavam cara — e escopo.

Exemplo real de histórias de usuário criadas para estruturar a lógica do sistema, aproximando os critérios técnicos de situações práticas e compreensíveis.
Exemplo real de histórias de usuário criadas para estruturar a lógica do sistema, aproximando os critérios técnicos de situações práticas e compreensíveis.

E o volume de material gerado a partir desse processo não foi brincadeira. Os artefatos de design e conceituação começaram a crescer tanto que, por vezes, o navegador travava ao tentar carregar o board completo. Era como se a quantidade de ideias tentasse transbordar o espaço digital que tínhamos. Ainda assim, tudo fazia sentido — cada card, cada linha, cada conexão.

Estrutura baseada em critérios técnicos com pesos e notas atribuídas por itens avaliativos.
Estrutura baseada em critérios técnicos com pesos e notas atribuídas por itens avaliativos.

Essa visualização ilustra a primeira validação interna do algoritmo. Através da simulação de dados reais, conseguimos entender como as propriedades seriam avaliadas e classificadas conforme os critérios definidos nos módulos, garantindo consistência e aplicabilidade da lógica.

Vale dizer que, por questões de confidencialidade e sigilo institucional, muitos dos documentos e artefatos desenvolvidos durante o processo não podem ser tornados públicos neste artigo. Os exemplos apresentados aqui foram cuidadosamente selecionados para ilustrar o trabalho sem comprometer informações sensíveis da iniciativa.

Materia publicada em O Estado de São Paulo.
Materia publicada em O Estado de São Paulo.

Em 2024, a iniciativa foi oficialmente apresentada pelo Governo Federal como parte de uma estratégia mais ampla de fomento à rastreabilidade e sustentabilidade na produção agropecuária nacional. A coordenação do projeto ficou sob responsabilidade do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), em parceria com instituições como a Embrapa, a Universidade de São Paulo (USP) e o Centro de Agricultura Tropical Sustentável (STAC).

A proposta se fundamenta em pilares técnicos robustos e critérios claros para avaliar propriedades rurais em aspectos como conformidade legal, boas práticas agrícolas, gestão de recursos e rastreabilidade. Ainda em fase de estruturação, a expectativa é que essa iniciativa contribua de forma decisiva para atender aos compromissos do Brasil frente à Agenda 2030 da ONU.

Quando a ideia amadurece: A virada de conceito em movimento coletivo

Todo esse processo não foi nada fácil. Tiveram dias em que viramos a noite debatendo como uma simples nota deveria ser calculada e como ela impactaria todo o algoritmo de avaliação. E outros em que paramos tudo para explicar o que é um critério de aceite. A construção do entendimento comum foi quase tão importante quanto a construção do produto em si.

Esse projeto me ensinou que o papel do design é muitas vezes invisível, mas essencial. É costurar entendimentos, alinhar expectativas, traduzir entre mundos diferentes. É saber facilitar uma conversa entre um cientista que estuda o índice pluviométrico do solo e um desenvolvedor de sistema.

Não é todo dia que você vê um projeto sair de um conceito cru e ganhar escalabilidade nacional. Testemunhamos um grupo multidisciplinar se consolidar como um time. O conceito, antes abstrato, ganhou corpo, virou protótipo, e se projetou como um futuro programa nacional. Vimos o design ocupar um lugar de protagonismo em um ecossistema normalmente dominado por pessoas da área jurídica, engenharia e política. O Selo Verde Brasil não é apenas uma ideia de certificação futura. É uma promessa de tornar o Brasil referência em rastreabilidade e sustentabilidade, por meio de um ecossistema que une dados, regulação e experiência.

Para mim, foi mais uma prova de que design não serve só para fazer bonito — serve pra fazer sentido. Pra construir pontes entre disciplinas, transformar ideias em direções e, principalmente, dar forma ao que ainda não existe. Boas ideias, com o cuidado certo, podem se transformar em soluções que mudam o mundo.

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